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Jardim do Enforcado, a banda lendária dos anos 80, considerada a primeira banda de Deathrock em Portugal, volta a brindar os fãs desta vez com o segundo lançamento em CD.
A Pós-80's orgulha-se de apresentar "Onde Caixões Brotam como Flores ao vivo no RRV, 18 maio '89", o registo do mítico concerto de homenagem, 9 anos após a morte de Ian Curtis (Joy Division). O CD inclui um booklet de 20 páginas com imagens e um texto de Luís Futre.

... para falar do concerto de 18 de maio é necessário falar da nossa demo-tape gravada em março de 1989.

A necessidade de ter uma demo-tape era urgente! Em janeiro desse ano fomos tocar ao Rock Rendez Vous a convite dos K4 Quadrado Azul. O Paulo Neto, baterista dos K4 e dos Essa Entente, fez o convite sem conhecer a música do Jardim do Enforcado, só pelo facto de ser nosso amigo. Foi uma questão de sorte. Mas era necessário ter uma demo-tape para termos acesso a futuros concertos e não só. O nosso amigo Faísca precisava de uma cassete nossa para passar na RUT (Rádio Universidade Tejo), no seu programa “Ecos do Império”.

Então, em 1988 comprei o fanzine “Die Neue Sonne” do Jorge Pereira, comecei a trocar correspondênciae percebi que uma edição pela editora dele, a Facadas na Noite, seria possível. A porta estava mais ou menos aberta com a edição dos H.I.S.T., de Setúbal... Portanto, a nossa próxima etapa seria gravar a demo-tape, gastando o mínimo dinheiro possível. Claro que algumas bandas gravavam coisas na garagem com um Fostex, mas nós não éramos ricos nem tínhamos dinheiro para gravar em estúdios decentes como o Musicorde, em Campo de Ourique. O nosso “budget” era miserável...

Um dia, em Fevereiro de 1989, numa ida ao Rock Rendez Vous, tivemos a feliz ideia de falar com o Pita, o técnico de som. Levámos haxixe e fizemos uma proposta... O Pita era um “macaco velho” nessas andanças e, claro, aceitou e começou logo a pensar como nos poderia pôr a gravar sem que o Mário Guia (dono do RRV) soubesse e assim meter esse dinheiro no bolso. A ideia foi tentar encaixar uma sessão de gravação num dia em que não houvesse concertos para não dar nas vistas. Ele olhou para a agenda e viu que no dia 13 de março iria haver uma festa de alunos do Secundário, a partir das 17h. Nesses dias de festas de escola previamente marcadas o Pita costumava ir mais cedo para preparar as coisas como era costume e o Mário Guia nunca iria saber... Tínhamos era de estar no RRV logo a seguir ao almoço e tentar gravar o máximo possível em take directo, como se fosse um concerto ao vivo, e sem overdubs, antes que os adolescentes chegassem.
Tínhamos então seis músicas prontas para gravar - "Memória Oculta", "Estranho Sentimento", "Viagem sem Retorno", "Jardim do Enforcado", "Dos Teus Cânticos" e "Sombras" – e como o Pita, como técnico de som, não era grande coisa, talvez por ser um bocado baldas, levámos um amigo nosso, o Jorge Santos que conhecia bem o nosso som. O objectivo era ele estar sempre em cima do Pita para tentar melhorar o processo da gravação com as suas dicas.

Nessa altura, já tínhamos um novo elemento na banda, o Vasco Corisco, irmão do nosso baixista Vitorino. Vasco entrou para a banda para encher o nosso som com a sua guitarra sónica, para fazer uma espécie de “wall of sound”, com muitos feedbacks e ruído dando assim espaço para o Paulinho dedilhar mais a guitarra e solar. O Vasco era exímio no que fazia. E nós éramos caóticos a ensaiar e a gravar. Nunca fomos disciplinados.

No dia da gravação eu e o Carlos Pancadas chegámos ao RRV por volta das 14h, o Paulinho já lá estava, mas os irmãos Corisco e o Jorge Santos chegaram depois da hora combinada. Nem soundcheck fizemos. Foi só ligar os amplificadores e tocar todas as seis músicas que tínhamos, várias vezes seguidas. Todas as músicas foram gravadas em vários takes para depois escolhermos as melhores para a demo-tape. Durante a gravação fomos surpreendidos pela chegada de dezenas de adolescentes, ainda por cima eram todos betos, a olhar para nós com ar de espanto, devíamos parecer extra-terrestres ou coisa da género. O Pita deu ordem para terminar a gravação. Tínhamos de sair dali o mais rápido possível para não dar nas vistas. O resultado final não foi o melhor, a voz estava muito alta, todos os instrumentos estavam cheios de delay, etc. Enfim...

Mas já tínhamos as cassetes connosco para enviar para o Mário Rui, dos Compatriotas, para o Jorge Pereira, da editora Facadas na Noite, e para o Faísca, da Rádio Universidade Tejo. Dito e feito! Passado um mês e meio tínhamos um concerto marcado para o RRV. Seria o nosso segundo concerto lá. Era o Mário Rui que estava a organizar os concertos e como era um grande fã dos Joy Division nunca iria deixar passar ao lado o 18 de Maio, o dia em que Ian Curtis se suicidou. Passaram nove anos e, para ele, era importante comemorar. Para nós era igual ao litro, queríamos era tocar.

Assim, em abril de 1989, recebemos o convite dos Compatriotas para tocar no aniversário da morte do lan Curtis e fiquei feliz por saber que a banda escolhida para tocar connosco nessa noite foram os Khaos e que a última banda da noite seria o Jardim do Enforcado. Desta vez iria estar mais tempo em palco, a coisa tinha de ser grandiosa.Tínhamos de levar caixões e muita parafernália mórbida, de horror. O nosso slogan era “Onde Caixões Brotam Como Flores". Além disso, tínhamos de resolver um pequeno ódio de estimação: o jornalista João Pedro Costa.
Falei com um dos meus melhores amigos da época, o Abraão Tavares, que se disponibilizou para fazer todos os adereços necessários. Eu e ele, nessa altura, estudávamos na escola de circo, tínhamos uma oficina para os estudantes de cenografia e adereços, e a Tété (a famosa mulher palhaço), que era a diretora da escola de circo, disponibilizou tudo e mais alguma coisa para podermos fazer os adereços. A Eduarda Abbondanza (designer de moda famosa na época), mãe dos projetos “Manobras de Maio” e “Moda Lisboa” também se disponibilizou para fazer o meu guarda roupa para o concerto: iria vestido de vampiro/morto-vivo/palhaço da morte. Então, a cartola era um adereço da escola de circo, a capa e as calças foram desenhas e concebidas pela Eduarda, a t-shirt foi feita por mim - despejei vários tubos de cola em cima da t-shirt, depois pintei de maneira que pudesse dar a ideia de ser uma coisa em carne viva. Mas precisava ainda de um caixão que parecesse real e verdadeiro…

Em 1980, ainda puto, ia a todas as sessões da meia-noite ver filmes de terror, acompanhado por amigos mais velhos. Mais tarde, com o “boom” dos videoclubes, ficava a ver tudo o que eles lá tinham. Via os filmes todo drogado. Os filmes da Hammer foram muito especiais. Vincent Price, Christopher Lee e Peter Cushing e “O Caixão” foi um filme muito influente na música inicial do Jardim. A cena do caixão em palco vem daqui...Eu e o Abraão começamos a fazer um caixão com um metro e oitenta de comprimento para eu poder sair de lá, foi duro, mas conseguimos... O caixão ficou perfeito, muitos dias de trabalho, pintámos de preto e colocamos um forro de veludo vermelho, uma tampa com dobradiças para abrir e fechar. Pelo meio ainda fizemos um morcego com pele de coelho, umas cabeças decepadas etc,etc. O Abraão fez um trabalho incrível, infelizmente ainda não fazia parte da banda.

18 de maio, dia do concerto. Cheguei ao Chapitô por volta da hora de almoço - como éramos a última banda a tocar seríamos a primeira a fazer o soundcheck e, por isso, tínhamos de chegar relativamente cedo - aí percebi o grande problema que tinhamos pela frente: como transportar um caixão de quase dois metros da escola de circo para o Rock Rendez Vous?...
A solução seria encontrar um táxi com tejadilho... O Abraão já lá estava então colocamos o caixão junto à porta da escola, que ficava na costa do Castelo de São Jorge, e a ideia seria o Abraão ir à estação de táxis do Rossio procurar um táxi com tejadilho enquanto eu ficava junto ao caixão. Mas fiquei desconfortável e sozinho... Passou um velho que deu um pequeno salto quando viu aquilo, meteu as mãos na cabeça e disse com voz trémula que era proibido ter uma coisa daquelas na rua e que quando chegasse a casa telefonava para a polícia... Passaram duas senhoras na rua, e quando uma delas quando viu o caixão voltou para trás, a outra foi espreitar e acabou também por voltar para trás na direção da amiga... “Que merda, nem um charro posso fumar em paz...” E continuou com várias pessoas a passar e a olhar com ar de espanto. Um senhor idoso foi espreitar e perguntou "O caixão é verdadeiro? Tem alguém lá dentro? Não era melhor pôr um pano a tapar isso? É permitido por lei ter um caixão na rua?”,etc, etc. Pensei em voz alta “Onde está a merda do Abraão?"... Entretanto vejo um táxi com tejadilho a descer a rua da costa do Castelo em direção a mim. Parou repentinamente a 50 metros, vejo o Abraão a abrir a porta e a correr, o taxista abre a porta e começa a correr atrás do Abraão, com uma barra de ferro... Um filme de terror! Fui ter com o taxista no momento em que parou para se benzer. Ele estava extremamente nervoso disse que não admitia este tipo de brincadeiras e ameaçou que ia chamar a polícia...
Felizmente, o maldito taxista foi embora. Falei com Abraão para encontrarmos uma solução o mais rápido possível, antes que chegasse a policia.A única hipótese era pedir emprestado a carrinha da escola à Teresa Ricou (Tété).

Foi fácil e rápido, ela fazia tudo por nós! Passados 30 minutos estávamos na porta do RRV a tocar à campainha para entrar. A rapariga que costumava estar na bilheteira abriu a porta e afastou-se rapidamente do caixão, um bocado nervosa. Eu trazia dentro da carrinha um monte de adereços inspirados nos b-movies de horror, facas, machados, cabeças decepadas, morcegos, etc.
Os irmãos Corisco e o Paulinho tinham acabado de chegar e o último foi o Carlos Pancadas, o baterista. Aproveitámos para falar entre todos… Tínhamos um alinhamento feito mas este foi alterado no dia anterior ao concerto. Como era uma celebração dos Joy Division, deveriamos tocar uma música deles. Chegámos a ensaiar a música “Warsaw”, mas acabámos por desistir para dar mais espaço às nossas músicas. Não vamos fazer um tributo aos Joy Division como era suposto, vamos tocar só as nossas cenas.


A ideia sempre foi recriar um cemitério no palco. Levámos também, mais uma vez, bombas e petardos mesmo sendo proibidos em recintos fechados, que libertaram bastante fumo que chegou a causar a intoxicação de algumas pessoas do público! Nos camarins fui maquilhado pela Elsa, nossa colega da escola de circo. Todos nós esperamos nos camarins que os Khaos acabassem de tocar. No intervalo não houve música ambiente, usámos uma gravação feita pelo Carlos Pancadas num matadouro de porcos no Montijo, quase em frente à minha casa. Metemos a cassete a tocar num volume altíssimo! O som das máquinas e os grunhidos dos porcos no momento da morte era insuportável, Mas pedimos ao Pita para subir ainda mais o volume! Durante uns vinte a trinta minutos o RRV transformou-se num autêntico inferno!...

Durante esse tempo, com o RRV mergulhado na escuridão, o caixão foi colocado no palco, os petardos e as bombas de fumo foram rebentadas e, no meio da escuridão, eu meio sorrateiro entrei no caixão, com grande dificuldade porque, infelizmente, era muito apertado - meço 1.82m e o caixão tinha 1.80m! Estava vestido de vampiro com capa, cartola, corda ao pescoço e cara pintada. Levei também saquetas de sangue artificial iguais aos dos filmes de terror, rebentei várias que tinha na boca e as que tinha espalhadas pelo corpo até ficar com montes de sangue a escorrer pelo corpo...
Tinha tomado um ácido antes do concerto e........ Como sou míope e optei por não usar lentes de contacto, fiquei sem ver ninguém. Como tinha fumado umas coisas, optei por fazer uma espécie de exorcismo, libertando toda a carga negativa acumulada no dia-a-dia, em cima do palco e do público!

Quando dei por mim, a primeira música estava quase a chegar ao fim. Ainda gritei e berrei. Felizmente, era a “Viagem Sem Retorno”, a nossa única música instrumental. A segunda do alinhamento foi “Memória Oculta”. Aí o fumo em palco era tanto que não dava para perceber onde estava o caixão.A terceira foi o “Jardim do Enforcado” e a quarta música foi o “Estranho Sentimento". A versão era lenta e sei que a meio da música tropecei no caixão e caí fora do palco. Magoei-me, mas regressei ao palco passado um minuto, enquanto o Paulinho solava na guitarra e os restantes músicos deram mais uma volta à musica. As seguintes foram “Sombras”, “Lâminas Loucas”, “Dos Teus Cânticos” e “Punição”, que tinha sido propositadamente guardada para o fim. “Punição” tinha a particularidade de ser dedicada ao jornalista do novo jornal de música LP. O João Pedro Costa escreveu isto em Fevereiro, a propósito do nosso primeiro concerto no RRV com os K4 Quadrado Azul:

«Ah! é verdade. Logo a abrir o espectáculo apareceram os Jardim do Enforcado. Como não me ocorrem palavras para aquilo que vi transcrevo-vos algumas palavras de uma amiga que não percebe nada destas coisas da música popular portuguesa. Os Jardim do Enforcado talvez estivessem melhor situados (agora que estamos em época de Carnaval) no Brasil, a fazerem palhaçadas para os momos, com todo aquele espectáculo de máscaras sem vida. No meio daquilo tudo safa-se o baterista, mas também ele só tinha que marcar o ritmo daquela palhaçada sem jeito. Vão para casa. Estudem as lições e quando souberem alguma coisa de vosso aventurem-se para um palco. A tontinha dos Mission sabe muito mais que vocês e era capaz, se quisesse, de dar-vos um bigode sobre qualquer coisa que vos interesse. Como numa noite de rock se aprendem tantas coisas... Umas boas. Outras más!»

Ainda em Fevereiro fizemos um manifesto anti-João Pedro Costa e distribuímos por vários sítios, desde o RRV, à discoteca Contraverso, na Jukebox, no Bairro Alto etc. O fanzine “Campo de Concentracão", do Humberto dos Condenação Pacífica, também ajudou ao publicar o nosso manifesto. Sempre que tínhamos um concerto a música “Punição” era dedicada ao João Pedro Costa. Na semana seguinte fui para a porta da redação desse jornal com a cara pintada de palhaço da morte com o manifesto numa mão e uma corda de Enforcado na outra, rebentei umas bolsas de sangue artificial...O objectivo não era intimidar,mas fazer umas fotos para futuramente publicar nos fanzines dos nossos amigos. Infelizmente, perdemos as fotos. A cena até teve impacto, toda a gente olhou. E, na semana seguinte, o jornal LP publica uma nota na rubrica "Linha de Fogo":

«Imaginem que os ânimos andam também exaltados em relação a personalidades do LP: o mais recente caso chama-se João Pedro Costa que, segundo parece, tem a cabeça a prémio: há quem o queira enforcar pelo simples motivo de não ter gostado de uma actuação de determinada banda. Como aparentemente foi o único crítico musical a manifestar-se desfavoravelmente, Linha de Fogo vai instaurar um inquérito para averiguar o seu estado de saúde mental. Mas nem tudo é belicoso nas andanças musicais»

Fiquei satisfeito. Valeu a pena fazer aquele acto em frente ao jornal.

Luís Futre

©2025 Pós-80's (P8 016)
Formato: CD Digipack + Booklet de 20 páginas
Edição de 200 exemplares
lançado em 21 de janeiro de 2026

Jardim do Enforcado:
Luís Futre: voz, urros e letras
Victorino Corisco: baixo (urros e gritos em "Punição")
Vasco Corisco: guitarra sónica
Paulo Seixas: guitarra, letras
Carlos Pancadas: bateria

Pedro Morcego: restauro e masterização
JB Kyron: recortes da capa do booklet
Carlos Paes: grafismo

Todos os temas de Jardim do Enforcado

https://pos-80s.bandcamp.com
https://www.facebook.com/profile.php?id=61575492213663

1. Memória Oculta (1:16)
2. O Jardim do Enforcado (3:14)
3. Estranho Sentimento (666) (3:37)
4. Sombras (2:15)
5. Lâminas Loucas (5:58)
6. Dos Teus Cânticos (2:57)
7. Punição (A Morte de Hermengarda) (6:56)

 

 

 

 

 

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